terça-feira, 26 de fevereiro de 2013


“Essa coisa de pele, sentida por nós, desatando os nós”

Bruna B. da Luz

Tudo começa com um barulho que se assemelha ao da broca do dentista, só que mais sonoro. Mentira, começa antes. Para cada pessoa tem uma origem diferente, para alguns no filho que nasceu, ou alguém próximo que morreu. Começa quando alguma opinião prevalece, quando algum sentimento mais forte desponta. Por fim, tudo isso é transformado em cicatriz, daquelas boas de olhar. E não é tombo, não é superfície cortante, tampouco queimadura, é tinta! Ou por melhor dizer: tinta, agulha e artista.
Os negros, escravizados aqui em nosso país, tatuavam em seus corpos orações e desenhos de caráter religioso, a título de proteção. Alguns carregavam na pele a coroa portuguesa, em agradecimento á princesa que lhes rompeu as correntes.  Eu, que deles vim, tenho uma flor de lótus para me dar elevação espiritual e uma pimenta como patuá. Como agradecimento, tenho quatro linhas de amor à minha irmã e uma foca que manifesta o meu amor à minha profissão. Assim como cada um tem uma história, cada um carrega suas próprias marcas. E desta vez voz escrevo com esta simples missão: contar a história de pessoas através dos desenhos que estampam seus corpos.
Fui logo na fonte, um estúdio de tatuagem, o Ancoras Tattoo. Lá eu aprendi uma lição valiosa, os maiores significados estão nos primeiros desenhos. Quem encara a agulha pela primeira vez provavelmente estará sendo motivado por algo deveras significativo. Os motivos são claros e evidentes, tatuagem dói e tatuagem é para sempre. Giva, que é tatuador, é um bom exemplo disso. A Tatuagem favorita dele é justamente a primeira, uma caveira, cuja “qualidade” virou motivo para brincadeira. “Já vieram falar para eu cobrir, mas eu já disse que não cubro de forma alguma!”, disse. Quanto eu pedi o porquê de uma caveira a resposta foi mais do que suficiente: “As caveiras são todas iguais. Você não as diferencia pela cor, pelo sexo. Ninguém vê se é branco, se é negro, se é homem ou se é mulher”. Outra, entre as mais antigas, traz certa nostalgia à Giva. Cinco homens em um estilo que recorda o punk estão estampados logo abaixo da caveira. “Era uma banda que eu tinha. Combinamos todos de fazer, mas como fui o primeiro, só eu fiz, porque os outros acharam que ficou muito feia”, contou enquanto ria. Quanto às demais tatuagens ele vai direto ao ponto: “O resto foi por ‘porra louquice’”.
A Jessica, que também é tatuadora, tem dois braços, um para aprender e outro para se espelhar. No esquerdo ela tem um rosto feminino na parte interna do antebraço, e outro “nas costas” da mão. Ela contou que resolveu fazer estes desenhos justamente porque queria aprender a tatuar este tipo de traço. “Eu ficava prestando atenção enquanto ele fazia e depois disso eu melhorei muito”, contou. Já o outro braço ela destina aos esboços de seu ídolo, Van Gogh.
Subindo as escadas do estúdio, encontrei Priscilla, bem no momento da dor. Ela estava tatuando um mago em homenagem ao seu bisavô, que faleceu há 10 anos. Ela contou que ele possuía um lado bastante místico. “Ele fazia rezas para fechar o corpo e anotava tudo isso em um caderninho”. Para ela a tatuagem fecha um ciclo. “Teve o momento de sentir saudades e agora é hora de curtir. E vou poder ter ele sempre junto a mim”, disse. Coisas que além de um tatuador, poucas pessoas poderiam fazer por Priscilla.  

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